quinta-feira, 9 de outubro de 2014

FALANDO DE TRADUÇÃO


O CORVO – GÊNESE, REFERÊNCIAS E TRADUÇÕES DO
POEMA DE EDGAR ALLAN POE  


Traduzir é uma arte, uma arte exigente, uma arte sutil. Claudio Abramo em “O corvo – Gênese, referências e traduções do poema de Edgar Allan Poe” deixa a sutileza de lado e apresenta seu indispensável trabalho, de critica e análise, sobre a tradução. A regra vigente no Brasil e, segundo sua experiência e estudo, como deveriam trabalhar nossos tradutores. Ou melhor, ele também analisa traduções de estrangeiros. 


O objeto do trabalho de Claudio é o poema “The Raven”, apresentado no original, e em várias traduções. De Machado de Assis, passando por uma tradução em prosa de Abramo e traduções de Baudelaire e Mallarmé. 

A tradução é um campo que ainda não recebeu a devida atenção. “O corvo – Gênese, referências…” é obra indispensável aos cursos de tradução em nossas universidades. Tradução, essa terra de ninguém, campo onde aventureiros, escudados nas máximas “traduzir é trair”, “transcriação e as liberdades daí advindas” ou “traduzir é reescrever” conseguem desfigurar completamente uma obra. Este aprendiz, também no ofício de traduzir, entende que no centro desse debate se encontram a tradução, as várias formas, e o original. O grau de equivalência do texto de chegada em relação ao texto de partida. Equivalência quer dizer sonoridade? Para alguns sim. Priorizar sons e ritmos, deixar a semântica em segundo plano, esse o modus operandis da maioria tradutora brasileira. 

Claudio Abramo não se alia a tal corrente. Entende que ao agir dessa forma a tradução despreza o que há de mais importante no poema. 

O trabalho de Claudio Abramo é de uma riqueza rara em livros de critica literária. Aqui, além das questões técnicas estão bastante evidentes o estudo entusiasmado (só para não dizer apaixonado) e a coragem com que expõem sua insatisfação aos rumos tomados pela tradução no Brasil. O autor rema contra a corrente e, como não sou de ficar em cima do muro, pulo para o interior de seu barco. 

Coragem, pois aponta equívocos no trabalho do, para muitos – não me incluo – intocável, Machado de Assis. E a coisa se torna ainda mais grave, Claudio revela a origem de tais problemas. Nada mais nada menos que a tradução de Baudelaire. Pois é, Machado de Assis não teria usado o original “The Raven”, trabalhou a partir de “Le Corbeau”, a tradução assinada por Baudelaire e repetiu os erros do poeta francês. 

Claudio Abramo aponta os erros, diz como seria o correto e justifica lançando mão de notas e observações. Sobre a tradução de Fernando Pessoa, por exemplo: 

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça, 

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais. 

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento, 

Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais, 

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, 

Foi, pousou, e nada mais. 

A seguir Abramo esclarece: 

Os tempos ancestrais não são “bons” no original, mas “santos”. Mais adiante na 12ª estrofe, Pessoa coloca “maus tempos ancestrais” um jogo de contrários que de modo algum está presente no original. Pessoa identifica Palas a Atena, uma imprecisão comum. 

Dentro da imensa gama de teorias da tradução, escopo, equivalência (em seus intermináveis tipos) você, caro tradutor, com certeza encontrará ao menos uma que preencha suas expectativas ou limitações. 

Tem para todos os gostos. Pobre leitor monoglota. Engolirá cada coisa! 

A tradução não é uma terra de ninguém, tampouco um laboratório a produzir clones, mas deixar nítida sua origem, a paternidade se é que me faço entender. 



Texto de Luiz Horácio Rodrigues 

Fonte: Poiésis (www.novasaquarema.com.br


SOBRE O AUTOR

Luiz Horácio, gaúcho, jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema. Autor do documentário sobre o escritor Fausto Wolff - “Fausto Wolff ou Humilhando a Ignorância da Minha Angústia” Colaborador do jornal Rascunho e alguns sites. Cinquenta e sete anos. [Outubro de 2003]




quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O QUE É LITERATURA?


"A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social.
         O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro.
          A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana."
(Afrânio Coutinho)

Alguns Conceitos sobre Literatura

"Arte literária é mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra." (Aristóteles, filósofo grego, séc. IV a.C)
"A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem." (Louis de Bonald, pensador e crítico do Romantismo francês, início do séc. XIX)
"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate."  (Jean-Paul Sartre, filósofo francês, séc. XX)
"É com bons sentimentos que se faz literatura ruim."  (André Gide, escritor francês, séc. XX)
"A poesia existe nos fatos"   (Oswald de Andrade, poeta brasileiro, séc. XX)

Literatura Segundo o Dicionário 


literatura (Do lat. litteratura.] S.f. 1. Arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa ou verso. 2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época. 3.Os homens de letras: A literatura brasileira fez-se representar no colóquio de Lisboa.4. A vida literária. S. A carreira das letras. 6. Conjunto de conhecimentos relativos às obras ou aos autores literários: estudante de literatura brasileira; manual de literatura portuguesa. 7. Qualquer dos usos estéticos da linguagem: literatura oral [p.v.] 8. Fam. Irrealidade, ficção: Sonhador, tudo quanto diz é literatura. 9. Bibliografia: Já é bem extensa a literatura da física nuclear. 10. Conjunto de escritores de propaganda de um produto industrial.
(Dicionário Aurélio Eletrônico)


Fonte: http://www.literaturabrasileira.net/